Há 20 anos ela não sabia o que sentir. Toda atenção, cuidado e mimos já não seriam unicamente dela; os brinquedos logo seriam divididos e o quarto ficaria cada vez menor com roupas e móveis daquele novo bebê, que chegaria em poucas horas.
Me lembro de poucos detalhes dos momentos de infância, infelizmente nossa memória não guarda detalhadamente fatos antigos. Mas, me recordo com toda clareza de um portão de ferro que tínhamos em casa e ela usava como lousa, para me ensinar ler e escrever. Eu mal sabia o que era escola e já estava sendo pré-alfabetizada.
Tanto empenho daquela garotinha educada, séria e perfeccionista resultaram em me tornar a melhor aluna da EMEI Sônia Bataglia Cardoso, em 1994. Que alegria era poder juntar todas aquelas letrinhas e descobrir as palavras antes de qualquer outro aluno! Que divertido era somar todas as balinhas e pedinhas que usavamos nos recreios.
Estudos comprovam - e sempre achei óbvio demais - que irmãos são diferentes, principalmente se entre eles existir uma diferença de 7 anos. Enquanto a primeira entrava no mercado de trabalho aos 16 anos, a segunda se divertia passando grande parte do tempo jogando vôlei e futebol na rua; criando poeminhas com suas amigas e brigando com o pai para poder ter a mesma liberdade da irmã.
Já não era mais aquela menininha e ela não era mais adolescente. Tínhamos vidas diferentes: enquanto uma se dedicava integralmente ao trabalho, faculdade e longo tempo de namoro, a outra estudava em duas escolas e o período restante aproveitava para fazer o que sabia melhor: confusão. O vôlei no meio da rua atrapalhava os vizinhos, a molecada em frente de sua casa irritava constantemente seus pais e o início da rebeldia causava desordem na família.
Mesmo com tantas faces, eu sabia exatamente o que desejava para meu futuro: um namoro tão lindo, durável e santo quanto o dela, um emprego em uma grande empresa, amizades verdadeiros que se durassem anos, uma intensa participação na igreja e ser admirada por todos. E além de mim, ela e meus pais me cobravam isso. Por muito tempo, fiquei sem saber quem eu era e o que queria da vida, se me chamava mesmo Aline ou se queriam apenas uma mini versão da Elisandra.
E, também por anos ela não foi quem eu gostaria. Precisei de uma amiga que me aconselhasse estudar ao invés de ir pra balada, que me aconselhasse a esperar o cara certo e não dar meu primeiro beijo em qualquer um. E não aceitei isso, eu a queria só para mim, pra cuidar tão bem quanto fazia naqueles tempos da infância, se preocupando se eu tinha caído de bicicleta depois de apostar corrida com todos os meninos do bairro.
Foi quando eu estava no altar, com o vestido mais lindo que já havia usado em toda minha vida, que a vi entrando com os braços de nosso pai entrelaçados ao dela. A cerimônia era tão idêntica àquela de filmes românticos, coisa digna de princesa! E, todos os 19 anos passaram por minha mente tão rápido, mas a ponto de reviver cada segundo e acordar: minha única irmã estava ali, realizando um de seus principais sonhos e eu fazia parte daquilo tudo!
E ela não havia mudado nada, absolutamente nada. Cada detalhe da decoração, do modelo do vestido, dos músicos, da festa... foram planejados com perfeição como tudo que fez até hoje. Eu vi que não tinha perdido minha irmã para o Eduardo, há quase 11 anos. Apenas tive mais um irmão e não dei importância em conhecê-lo.
Ainda hoje é complicado aceitar todas as diferenças e gostos. Continuo sendo a caçula um pouco doida, que não tem medo de nada e faz tudo para ser e fazer os outros felizes, mesmo quebrando um pouco (ou totalmente) a cara e às vezes magoar alguns. E ela, a mesma tradicionalista de sempre, relutante e cética a algumas coisas. Enquanto uma tem o temperamento extremamente sangüíneo, a outra tem 100% de temperamento colérico.
Com tantas "guerras" e dores no decorrer de apenas 20 anos, aprendi a me conhecer e saber quem eu sou. A comparação e cobrança da irmã mais velha só contribuiram para meu bem, para eu chegar onde estou hoje: realizada com o curso na faculdade, apaixonada pelo trabalho na Igreja, agradecida por amigos tão fiéis e saltitante com o emprego dos sonhos. E como ela sempre diz, o meu príncipe encantado vai chegar.
Mesmo com seu jeito, ela sempre esteve ao meu lado. Quando tinha algum sem noção querendo me bater na escola (sendo peste assim, quem não perderia a razão?!), quando precisava de roupas pra sair e ainda não tinha meu próprio salário, no momento em que fiquei seriamente mal de saúde... sempre!
Toda esta história é apenas em agradecimento, por nunca ter desistido de acreditar e confiar em mim. Se estou dando passos cada vez maiores e cheguei finalmente ao mundo adulto e da maturidade, devo muito à ela.
Por ser eternamente grata, faria qualquer coisa para vê-la bem. E sei que este momento vai passar. Logo logo estará dando ordens e me dizendo que "as coisas não são assim, Aline", tudo novamente e como sempre. Dificuldades são apenas provações, porque o caminho para alcançar o céu não é fácil.
Obrigada, Elisandra Aparecida (ex-Pedroso) Inácio Rossi!
Se sou a Aline Maria Pedroso Inácio de hoje, é porque você esteve ao meu lado. E continue confiando, um dia serei tão adulta e exemplar como você e lhe darei sobrinhos tão pestes quanto eu fui quando criança! =D