segunda-feira, 20 de julho de 2009

Para Deus

Oi Jesus,

Sei que tenho andado meio ausente, mal tenho falado com você e muito menos tendo vontade de te encontrar. As coisas mudaram rápido demais e não consegui me segurar naquela menininha que daria sua vida para ajudar os outros.

A menininha que cresceu e andou aprendendo coisas diferentes, muitas bem opostas as que me mostrou serem certas e seguras. Talvez, tudo isso tenha sido fruto da 'libertinagem', de não saber dizer não ao errado, de dizer sim excessivamente a tudo, em busca de conhecer e aprender mais sobre o 'mundo'.

Sabe, não tenho o mínimo direito de te questionar de nada, até porque existe uma grande diferença entre nós: você é Deus, e eu, nada. NADA. Um nada que não sabe mais qual caminho escolher, quais decisões tomar e principalmente, qual sonho vou optar por realizar.

Mas, como filha - mesmo com a rebeldia e falta de fé que cresceram nesse tempo - me sinto no dever de questionar: por que o ser humano é assim, tão chato, tão complicado, tão egoísta, tão explorador? Por que a gente tem que se machucar tanto exatamente com aqueles que amamos?

Se você me respondesse que tudo que aconteceu até agora teve um motivo, uma razão, eu entenderia, mas não ficaria satisfeita. O que ocorre é ver a insatisfação dos outros quando se tentou ser alguém melhor.

Você deve se lembrar. Quantas coisas que já renunciei, quantas e quantas vezes tentei não ser do jeito que sou apenas para trazer um pouco de orgulho. Algumas notas ruins, mas nunca uma digna de reprovação. Algumas bebidas, mas nunca a ponto de ser a vergonha nas rodas. Uma aluna quase exemplar, um trabalho que todo pai sonhou para seu filho. O trabalho na igreja. Mesmo quando eu era a 'tal' filha, não estava bom.

Irresponsável, sem juízo, egoísta, ingrata. Por que, mesmo fazendo o bem e o certo, as coisas continuaram da mesma forma? Sei que diz muito que 'não devemos esperar um elogio dos outros, não devemos fazer nada por recompensa', mas em 21 anos, ainda não ouvi um 'poxa, eu tenho orgulho de tê-la como minha filha'.

Pouco me importa o que os outros pensam, o que os outros acham ou julgam. Fui o que fui no passado, sou o que sou agora. Diferente, mudada e em outro mundo, talvez. Não quero utilizar o desgosto de ter vindo 7 anos após a 'melhor filha do mundo' e meio que não planejada pela família, mas espero que um dia, quando a gente se encontrar, você leve em consideração estou cansada. O fardo tem estado pesado, e não estou conseguindo suportar.

Cansada, em plenos primeiros dias com 21 anos, de tentar tentar tentar. Tentar ter sido alguém, tentar ter sido uma boa aluna, boa funcionária, boa amiga e acredite se quiser, boa filha - mesmo que da minha maneira.

Infelizmente não consigo ser um doce de pessoa quando cresci vendo um tipo de comportamento. Eu não consigo agir diferente, e por me conhecer melhor do que qualquer um, você sabe que eu tentei. Tentei por um pouco salvar o mundo, cuidar dos pobres, dos cachorrinhos da rua, amparar meus amigos, ajudar quem vinha até mim. Falei de você, trabalhei para a igreja, fiz exatamente tudo aquilo que eles esperavam.

E eu continuo aqui. Irresponsável, sem juízo. Trocando o dia pela noite nas baladas, aprendendo tudo aquilo que eles tentaram deixar longe de mim até agora. Não tenho razão de mudar radicalmente, mas é apenas uma forma de esquecer que não consegui chegar onde eles tanto queriam - ou talvez, eu tenha estado perto, mesmo que eles não fossem capazes de, por uma vez apenas, reconhecer e me elogiar.


Espero te encontrar um dia, mesmo que seja pra dizer que eu tinha consciência de todas as coisas que fiz, sendo elas boas ou ruins.

A comemoração da nova idade foi excelente. Você me ajudou em tudo, até nas ideias mais loucas e absurdas que passaram por essa cabeça. Sou grata, e muito. Mas, se pudesse voltar, só pediria uma coisa, com muita dor no coração por talvez ter de renunciar a tudo que vivi nas últimas semanas:

Eu queria, por uma vez que fosse, ouvir:

VOCÊ É A MELHOR FILHA DO MUNDO.



Pra finalizar, obrigada. Obrigada por nunca ter me abandonado.
Eu sei que agora, mesmo estando de frente para uma tela de um computador, você vê as lágrimas e, ao contrário do que espero, não dirá que é drama. Sei que me abraçará, pois mesmo com minhas falhas, meus erros, minhas limitações e meus pecados, você me ama.


---------------------------------------------
Um dia eu quero ler isso e dizer: putz, ainda bem que essa fase passou. Durou 20 e tantos anos, mas passou.



E, aquelas músicas que há anos me acompanham nessas horas, nessas mesmas brigas:
Nobody's home / Stay together for the kids / Eastern Glow / The Ghost of you



desculpem-me pela linda palavra, mas CARALHO! Até quando vai isso?! ;/


Nenhum comentário: