domingo, 11 de julho de 2010

Começar de novo

Às vezes, ainda é possível sentir o cheiro de Outubro no ar. A fragrância, os sentimentos, as sensações e todo desejo que aquela nova fase trazia. Novo. Talvez esta fosse a palavra para definir o que vinha pela frente. Mal imaginava onde estava pisando, o que aconteceria e quais mudanças ocorreriam em mim.

Se hoje consigo, em meados de abril deste ano a situação era diferente. Não me recordava daquele tal mês e tampouco acreditava que aquela magia havia existido. Os sonhos não estavam mais mornos, mas sim guardados em uma geladeira; as amizades, tão amadas e cultivadas, também estavam frias e distantes. Mais que isso, minha alma estava distante, sem saber o que desejar e/ou pensar.

Um modo automático foi ativado. Eu não mais vivia, acho que bem pouco existia. Algumas vezes, me questionava aonde havia perdido toda aquela paixão, aquela força pra lutar. Onde? Nada tinha mais graça e todo ânimo, toda excitação haviam sido trocadas pela lamentação, desgosto e reclamações.

Não sabia quando seria exatamente o fim, apenas tinha a noção que estava por vir. Se tornou ainda mais próximo pois eu o forcei, não trocando por uma nova vida, mas porque enterrei em mim toda a perspectiva que tinha no começo. Guardei e não me permitia procurar, para que talvez, fosse mais fácil começar de novo.

Acabou. Acabou e não, não foi nada fácil seguir adiante.

Pensei em enterrar também aquela vida e fazer tudo do zero, como se não tivesse me frustado e me iludido daquela vez. Errei e fracassei, foi impossível. Mais do que isso, pirei. Poxa, não era o final de um relacionamento, ou a morte de alguém que eu amava. Foi apenas o final de um estágio profissional, em um local o qual coloquei quase que 100% de meu coração.

Exatamente. O amor que havia colocado não combinava com a forma que o final chegou, embora soubesse que um dia, chegaria o fim. Apenas um estágio! Por que foi tão difícil? Virou uma bola de neve. A solidão que encontrei no novo emprego ajudou demasiadamente a pensar sobre tudo isso. E o antigo trabalho se tornou como uma sombra, com o ressentimento, e o porquê de não ter dado certo, quando se era o que eu sempre quis.

Uma coisa é fato: não iria para frente porque não era o que deveria ser. Deus sabe de tudo, e aquilo, realmente me mudou. Amadureci imensamente e me descobri e realizei-me profissionalmente, mas durante a etapa escolhi caminhos os quais não me trouxeram tantas conseqüencias boas. Por diversas situações as quais somente cabem ao meio profissional saber, não tinha uma vaga, um local para que eu fosse efetivada.

E, o final foi difícil sim, porque eu o tornei assim. O sentimento de perder algo que eu amava e tinha colocado tanta esperança fez com que me afastasse das amizades que tanto apreciava e usasse como escudo minha indiferença e minha máscara visível de tristeza. É, eu realmente não consegui lidar com algo que sabia que teria que lutar contra.

Sei que poucos entenderam a tempestade que passei - e que claro, eu mesma criei. A questão é que não é fácil ter que deixar algo que simplesmente, se tem que deixar. Apenas um estágio de minha vida profissional, apenas um estágio. Um estágio, uma fase. Um tempo o qual coloquei tudo de mim, sem me lembrar do conselho que havia recebido 'no final do arco-íris, podem ser apenas salgadinhos amarelos, e não moedinhas de ouro'. E, assim foi.

Passei por aqueles 5 estágios da luta contra a perda, contra o luto. De certa forma, foi um luto o qual eu vivi.
  1. Negação e isolamento: me questionava a cada segundo porque deveria ser daquela forma. A hora do almoço, na qual sentávamos nos banquinhos e conversávamos, davamos risadas, foi trocada por 60 longos minutos na frente do computador, adiantando algum trabalho. A intimidade, as confidências, a confiança e a parceria com os amigos também ficaram para trás.
  2. Raiva: A segunda, ainda mais difícil e dura, havia indignação para todo lado. Não era justo eu ter me esforçado tanto, dado tanto de mim, para simplesmente não ter uma vaga efetiva naquele momento! AH! Choro, reclamações, dores de estômagos intermináveis... Por quê? Muitos eram efetivados em outros países, em outras áreas ou ficavam como 'terceiros'. O problema era comigo?!
  3. Negociação: no meu caso, a troca. Uma outra empresa me acolheu, e todos a minha volta pareciam felizes. É, mais um estágio, algo na mesma área... Mas não é a mesma coisa. Foi somente uma negociação minha com o futuro para não encarar a tragédia que seria o próximo Outubro.
  4. Depressão: Não era MESMO a mesma coisa. O mesmo emprego. As mesmas pessoas. As mesmas atividades. A mesma rotina. A mesma alegria, a mesma empolgação. O mesmo processo, os mesmos idiomas. Vários e vários dias, após o almoço solitáro, sentava em um cantinho ao sol e olhava os carros passando pela Rodovia Anhanguera e me lamentava: era no km 98 de Campinas, e não no 147 de Limeira. Com a depressão, a ilusão: um dia vão me chamar, vai aparecer uma vaga. Um dia, voltarei, será tudo como antes.
  5. Aceitação: Não, não será como antes. Aliás, já não era nada como antes. Cada amigo já tinha tomado seu rumo, todos seguiram adiante e por que eu, somente eu, havia parado no tempo querendo congelar a todos para não progredirem? Foram momentos ótimos, inesquecíveis, amizades que vão ficar no coração e uma experiência que me tirou dos 20 e me levou aos 22 com muito mais maturidade e sabedoria. E, cabe ao novo estágio receber cada segundo de minha atenção, dedicação e esperança para dois anos cheios de aprendizado.
Mal podia imaginar que viveria uma história tão carregada de acontecimentos como vivi em quase 2 anos. Quanta coisa! E, por isso foi tão difícil aceitar seu fim. Mas, depois de dois meses longe, parece que foi há uma vida, há uma eternidade. Agora, cada vez mais o novo desafio me consquista mais e as esperanças vão crescendo.

O começo deste novo 'namoro profissional' foi na data a qual mais espero no ano: meu aniversário. Uma perspectiva totalmente diferente. Me senti querida mesmo fazendo apenas 2 meses ao lado daqueles rostos que todas as manhãs me dão sorridentes 'bom-dias'.

Finalmente, de cabeça, alma e coração, ADEUS, Bosch.

E, após um longo tempo de luto, consigo enxergar alegria, esperança, cores novas. Afinal, a vida é da cor que a gente pinta!


Trilha sonora merecida e perfeita para o tema: Lifehouse.






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