Ao subir as escadas de madeira daquele rústico salão, decorado por todas as partes com flores delicadas nas cores brancas e violetas, avistei a mesa com a parte da família a qual sempre tive menos contato. Cumprimentei-os e fiz aquela piadinha básica sobre aqueles convidados, que não tinha proximidade e sempre eram motivo de comparação, devido a diferença de estilos culturais, sociais, econômicos e claro, de educação.
Aquele casamento foi dedicado interinamente para criticar aqueles que não eram da 'elite'. Uns para cá, outros para lá. Em algumas mesas, tinham umas primas, que eu mal dei atenção e embora sempre estivessemos nos mesmos eventos, raramente quis conhecer e me aprofundar para conhecer a essência dos corações.
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Alguns dias após, durante meu expediente de trabalho, ouço o toque famosíssimo de meu celular e como de costume, disse:
- Lá vem bomba. Se é de casa, alguma coisa explodiu.
- Aline, sua prima sofreu há pouco um acidente de moto. Está na UTI.
Daquele momento em diante, nada na família foi normal. O stress rondava diariamente minha casa, correria para cá e para lá. A família que já tinha problemas ficou extremamente abalada, afinal, manter um hospital e cuidados diários não é fácil, sem contar o mais importante: ela já não dava mais nenhum sinal de vida. E claro, eu me lembrava do casamento, da última vez em que a vi, sorrindo, bebendo seu vinho e toda feliz. Essa era ela.
Mal tínhamos contato - pelo contrário, eu adorava e era muito mais próxima a uma de suas irmãs - mas aquela situação me fez mudar os pensamentos e sentimentos, me fazendo dedicar um sábado ao lado dela no hospital. Foi diferente, não há como explicar. Uma situação dessas faz a gente perceber que um dia podemos estar bem, felizes e saltitantes, no outro... tchau. Ou até o contrário, reclamamos e ignoramos meio mundo e no segundo seguinte, as dádivas que até então tínhamos são tiradas como forma de nos acordar. Esse post não é sobre filosofia, então vamos continuar a história.
Mesmo não podendo vê-la sempre e estando com a agenda totalmente ocupada pelo trabalho e faculdade (além das futilidades que me fazem ficar cega para o essencial), perguntava regularmente aos meus pais como estava a saúde dela, sobre a melhora e a opinião dos médicos.
Isso não bastou, isso não bastava. Eu sabia disso, mas não fazia nada além de só perguntar aos outros.
Agora é a hora da filosofia: queria que todo mundo que vive dando desculpas que 'não tem tempo' para ver os amigos, que tem esse compromisso tal dia, que a vida de estudante e até de quem tem um trabalho é complicada, que em tal horário tem curso, tal momento precisa descansar e isso e aquilo... enfim, queria dizer somente uma coisa, e os educados que me desculpem:
- FODAM-SE!
Todo esse texto bonitinho e redigido com todo cuidado para apenas esta conclusão. Exatamente, fodam-se. Aliás, eu nem preciso dizer isso, porque no fundo sabemos que é isso que sempre acontece. Muitas coisas são importantes, mas não o essencial. Não é filosofia, é a verdade.
Todos nós estamos nos 'fudendo', me desculpem mais uma vez pela expressão - mas me mande para aquele lugar se você nunca disse isso. Temos preocupações demais, temos tarefas demais, temos compromissos demais, MAS NUNCA COM QUEM REALMENTE PRECISA, COM QUEM REALMENTE SE IMPORTA. Tá, uma vez ou outra, e quando acontece, o celular toca, tal horário devemos ir embora.
Aí, simplesmente o ciclo da vida se encerra e vemos que poderíamos ter feito mais. Eu poderia ter sido amiga da minha prima, poderia tê-la ajudado mais enquanto estava bem; poderia fazer muito mais agora por aqueles meus amigos que estão longe, que estão querendo um motivo qualquer para me ver (mesmo que seja um aniversário fora de época). Poderia sair do computador e ao invés de mandar um scrap dizendo que estou com saudades, pegar o carro e ir dar aquele abraço, ou até mesmo ligar. Mas aí vem aquela: o carro não está em casa, ligação pra celular hoje em dia fica cara...
É sempre uma desculpa. Querido amigo leitor, que deve me conhecer ao menos o suficiente para me imaginar sorrindo e filosofando: não deixe o escasso tempo 'te foder'. E dedico este post especialmente à srta. Linemary de Longe Bloom, ou a Aline Maria, ou a Line e até mesmo a Li, para os mais íntimos. Lá se vai alguém, com sobrenome Inácio e mesmo sangue, a caminho do encontro com Deus. E aí bate o arrependimento: durante aquela linda festa, eu poderia ter dançado aquele forró com ela, ao invés de falar mal, de reparar nos defeitos.
E como disse aquele senhor hoje a tarde:
- Velório? Isso que é uma visita de adeus, uma visita triste e amargurada. Aproveite-a.
Por favor, não sejam como eu, humana, que erra, que peca e que faz coisas horríveis às vezes. Amem, dediquem o tempo a quem realmente importa. Aposto que muitas vezes você, meu amigo, já se sentiu sozinho e deve ter se perguntado: 'onde está todo mundo?' Bom, eu estava fazendo alguma coisa qualquer e não me lembrei de você. Então não seja como eu, lembre-se dos outros, cuide, ame. Mesmo que você se esgote e se sinta fraco, em meio a tantos 'pés-na-bunda' que aqueles amigos ingratos irão te dar, valerá a pena.
O que será lastimável será você ter de deixar tudo de lado, seu trabalho, escola, enfim... seu dia-a-dia, para fazer uma visita de adeus.
Amar é construir diariamente o castelo que se quer viver diariamente.
É, estou filosofando demais, mas com AQUELE peso na consciência, no coração. Devia ter amado mais, ter consolado mais, ter ligado mais, ter sido mais!
Se vocês não querem 'se foder', comecem a viver de verdade. Eu quero viver, mas ainda não consegui me libertar dessa rotina que me cega. Caso alguém consiga amar a todos sem deixar para depois, favor me avisar.
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Inspirações pra esse texto que, embora tenha traços de rebeldia e revolta, foi feito com toda calma e vontade de ver o mundo de outra forma: ligação do meu amigo no final da tarde, conversa com outro amigo também no final da tarde, a ida de minha prima dessa pra melhor (me matei de rir quando minha tia disse isso) e um amigo (mais um...), querendo simplesmente uma festa de aniversário só pra poder rever os amigos. A que ponto chegamos!
Novamente, tenho de pedir desculpas por algumas expressões usadas acima. Para quem me conhece, sabe que me contenho ao máximo para não usá-las, mas há casos que elas encaixam perfeitamente. Como o Carlinhos disse um dia na formação, já não é mais palavrão, apenas uma forma de dizer que 'a coisa está feia'.
Chega de explicações.
Um comentário:
Pode ter certeza.
Irei te visitar!
bj
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