- 'Povo, desculpem-me. Hoje preciso correr. Vou jogar um vôlei, me alongar e dar uma andada'.
Realmente, ficar nos sofás aconchegantes e coloridos da lanchonete é tentador, principalmente porque a cada dia que se passa a quantidade de estagiários da Lei Nova aumenta e sendo assim, o ciclo de amizade também. São de todas as áreas, cursando diferentes cursos na faculdade, com interesses, vontades e gostos diferenciados. Uma forma de ampliar a cultura ali mesmo, ao som do pagode insuportável que o cara do caixa coloca ou da Nazaré empurrando todo mundo na novela 'Senhora do Destino', exibida na bela tela de LCD que fica à nossa disposição.
Sair às 15h00 deixa de ser ruim com um dia-a-dia assim. Às vezes, eu e mais algumas que compartilham comigo as dores - e dramas - da TPM, nos esbaldamos no maravilhoso, delicioso e calório sunday da Nestlé. Imaginem comigo: aquele sabor de sorvete de morango que só esse fabricante tem o dom de fazer, com pedaços da fruta, misturados com o tentador sabor de Galak e chantily. Muuuuuito chantily. Sem esquecer da cereja, claro. Hm, tentador demais.
Foi melhor colocar o tênis, prender o cabelo e deixar a roupa social de todo santo dia na mochila.
Um, dois, três, quatro, cinco. Agora manchete. Um, dois, três, quatro, cinco. CORTE!
Volêi: minha paixão que deixei de lado devido a inúmeros fatores, mas não recuso de forma alguma. Quando os punhos já davam sinal de cansaço, procurei a tiazinha do vestiário - que nunca está lá, sempre é possível encontrá-la em alguns dos ramais que ela anota em uma lousinha ao lado da porta do guarda volumes - e deixei a bola. Hora de alongar de verdade e retomar a vida que há um mês tenho esquecido. Sedentarismo? Jamais.
Não havia mais ninguém ali, a brisa estava fresca, o som perceptível no momento era da multidão de homens gritando pela bola que rolava em direção ao lago e dos pássaros que costumo apelidar de 'bichos brancos' ao redor da água exclamando seu melhor canto: qkué!
Ele se aproxima, me olhando com timidez e com um jeitinho meigo. Dei um sorriso, ele retribuiu. Continuei a série de alongamentos que aprendi durante os treinos com o pessoal do atletismo e vi que o garoto observava cada movimento que fazia, e alguns deles, tentava repetir. Minutos após, uma garotinha, pouco menor, chega e também entra no ritmo dos exercícios. Eu estava sendo imitada. Não iria ficar barato, agora eles mexeram com a pessoa errada!
- 'Cuidado, mocinha! Estique sua perna nesse ferrinho aqui, aquele é muito alto para você!' - deu corda, eu converso mesmo. E, como ela abriu um sorriso maior ainda, do tipo 'uau, ela tá me dando atenção', continuei. A Yasmin, de 6 aninhos, apontou para seu avô, que estava meio distante de nós e que como era seu dia de folga, os trouxe até o clube para brincarem.
- 'Ela não sabe contar ainda, mas é claro que eu sei contar! Já sei todas as tabuadas de cor!' - foi meio difícil fazê-lo confiar em mim e começar a falar, mas depois o Rafael, de 8 e na 3ª série, contou que ganhou de aniversário um microscópio, que agora fica ao lado de sua luneta e também de outros presentes educativos. - 'E eu serei um cientista. É esse o nome?'.
Sim, é cientista. Ela ainda não sabe bem o que quer, mas assegurou com aquele jeitinho de pestinha que não tem vergonha de subir em um dos pilares que o irmão se alongava, mesmo estando de saia. E medo? ha ha ha. - 'Não tenho medo não! O pior é eu cair, olha só, to cheia de machucadinhos já! Minha mãe fala que eu pareço moleque', contava ela toda feliz e contente por se divertir.
Sorri e pensei comigo mesma que, quando criança, eu era a mais menino de todas as da turma. Apostar corrida de bicicleta, esconde-esconde, subir nas árvores, jogar bola. Até hoje trago comigo inúmeras manchinhas na perna, que por muitas vezes critiquei por ter sinais enquanto muitas outras tinham o corpo delicado. Agora, só sinto orgulho: tive a melhor infância que uma criança pode ter e brinquei pra valer.
Daquele momento, só restou dizer aos dois presentinhos de Deus para aquela tarde:
- 'Brinquem bastante. E não fiquem preocupados com o futuro não, ele chega sem vocês pedirem. E se puderem, brinquem de esconde-esconde e subam na maior árvore que encontrarem'. Que saudade que tenho disso.
Nunca me imaginei com 20 anos, e quando tentava pensar no que seria, muitas coisas passavam por essa cabecinha. Hoje, estou bem próxima do que desejo profissionalmente; tenho uma vida social mega agitada e ao invés de me preocupar no que fazer após a aula, fico imaginando a família que vou formar daqui alguns anos - marido, filhos. Pós graduação, mestrado. Minha coluna num jornal qualquer, mas antes minha carreira pela Bosch, pela Abril.
Ser criança era tão mais fácil, tão mais doce.
É ser feliz no dia-a-dia. Talvez essa seja a receita que Deus quis me dar na tarde de hoje. Os objetivos mudaram, mas a forma de encarar os acontecimentos deve ser assim:
- 'Não tenho medo não! O pior é eu cair'.
E se eu cair, levantar. Sorrindo e querendo mais uma vez brincar da mesma coisa.
[play]
>> Muita música.
Um ano. HOJE FAZ UM ANO.
Obrigada meu Deus, estou viva, VIVA VIVA! Tenho a vida dos meus sonhos!
Enquanto, em 2008, eu me preparava para encarar uma cirurgia - e em seqüencia, os piores dias solitários num quarto e com poucos movimentos - agora estou cansada de um dia o qual mereço apanhar se reclamar.
E, eu AMO muito TUDO isso!
Obrigada meu Deus, obrigada à todos que estão nessa vidinha. Vidinha que posso afirmar: com erros, traições, decepções e tombos, eu AMO.
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